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TREINADOS PARA DESTRUIR
A maioria dos que acompanha a problemática ambiental conhece, desde há muito, os grandes desequilíbrios. Sabe das causas e conseqüências do efeito estufa, da redução da camada de ozônio, da chuva ácida, da desertificação, do encolhimento das florestas tropicais e recifes de corais, da poluição aquática, do lixo urbano, da manipulação genética de sementes, da destruição dos mangues, da salinização das terras, dos agrotóxicos, do tráfico de animais, da perda da biodiversidade, perda de solos e tantas agruras mais.
Já existe até um certo cansaço acerca destes temas. Como se estivessem com a validade vencida.
Claro, não é nada bom quando alusões a respeito de nossa sobrevivência parecem esgotar-se sem que estejam, minimamente, solucionadas.
Mas, nestes últimos 30 anos fomos bombardeados com tantas informações desencontradas sobre estes desequilíbrios, superficializaram de tal sorte sua abordagem que, convenhamos, estes verdadeiros cataclismos já nos parecem, na pior das hipóteses, uma espécie de feras amestradas ou velhos desafetos que já não nos sobressaltam mais.
De tanto se falar neles, parece que já não metem mais medo.
Mas, a despeito do cansaço ou da imprudente sensação de ter se tornado inofensiva, o fato é que a temática continua atual. E, sem solução à vista.
Também não sou imune ao cansaço a que me refiro. Por isso, desde há algum tempo, penso muito sobre as forças que movem a natureza humana em direção a este verdadeiro precipício. Qual a origem deste comportamento suicida?
O que faz a espécie de maior inteligência e de maior poder de decisão do planeta, adotar a destruição da natureza enquanto tática de sobrevivência?
Acaso é a única saída possível? É inexorável? Uma espécie de carma? Nós já nascemos assim?
Nascemos assim ou nos tornamos assim?
Quanto mais me pergunto, mais acredito que somos moldados para agir desta forma. Somos adestrados para nos bater contra o mundo natural. Somos aculturados para litigar contra a natureza. Somos treinados para destruir.
Para destruir, o mundo natural precisa nos ser apresentado como um lugar hostil, onde vivem seres ardilosos, vingativos, de comportamento vil e natureza baixa. O mundo natural, pouco conhecido, deve transformar-se em um emaranhado de animais e vegetais fantásticos. Às vezes, até inexistentes.
Um mundo repleto de monstros e criaturas amedrontadoras porque para lutar é necessário temer. Como o tigre, que luta não por coragem, mas por medo. Para digladiar contra a natureza é preciso temê-la. Afinal, quem pretende viver em sintonia com ela, não precisa bater-se contra ela.
Depois é necessário crer que sejamos de outra natureza. A natureza humana é divina, enquanto a outra natureza é despossuída de divindade. Apenas nós fomos criados à imagem e semelhança do criador. Os demais seres vivos, não.
É preciso acreditar que a natureza existe para atender aos desígnios humanos.
Assim, hostilizando o mundo natural, entendendo pouco dele, crendo não ser parte dele e admitindo sua existência apenas para satisfazer nossos interesses, podemos explorá-lo sem nenhum drama de consciência. Podemos dividí-lo, esquartejá-lo, poluí-lo, esgotá-lo, sem que pese em nossa alma alguma dor.
Pelo contrário: na sociedade de consumo, o conceito de sucesso está diretamente ligado à acumulação de bens. Embora bens sejam matérias-primas obtidas na natureza, ao invés de peso n’alma, dependuramos um maroto sorriso de prazer no canto de cada boca umedecida pelo sucesso que é consumir.
Treinados para destruir.
Acaso ainda não acredite, aguarde os próximos “recados”.
Enquanto isso, um forte abraço e até sexta que vem.
Luiz Eduardo Cheida é Médico. Foi Prefeito de Londrina de 1993 a 1996, Secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e Membro titular do CONAMA até março de 2006.
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